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Brasil asfixiado e sem vacinas conta seus mortos, e Bolsonaro se diverte

De que tanto ri o nosso presidente? O que mesmo eles estavam comemorando na festiva reunião esta semana numa churrascaria de Brasília?

Por: Ricardo Kotscho

Ao lado das imagens dos pacientes sem oxigênio morrendo asfixiados em Manaus, o que mais me chocou esta semana, exatamente pelo contraste, foi o ambiente festivo da churrascada oferecida por Jair Bolsonaro a seus cupinchas em Brasília.

Não sei se vocês repararam na cara de felicidade do nosso chanceler, Ernesto Araújo, quase em êxtase, puxando o coro de “Mito!” para o chefe e gargalhando quando ele começou a xingar os jornalistas, como se estivessem numa reunião do PCC nas quebradas do mundaréu, tão bem retratadas por Plínio Marcos.

O grande dramaturgo paulista também chocou a mais refinada alta sociedade brasileira, quando surgiu em plena ditadura, usando todos os palavrões conhecidos na época.

Agora, nada mais parece agredir os ouvidos da distinta plateia reunida na churrascaria e dos que assistiram ao vídeo publicado pelos filhos nas redes sociais com a grande performance escatológica do pai.

Naquele dia, o Brasil tinha passado da marca de 220 mil óbitos na pandemia, mas o presidente só queria falar das toneladas de leite condensado compradas pelo governo para alimentar as tropas.

Cercado de cantores sertanejos de segunda categoria e de outros artistas do mesmo nível, que gritavam “Mito!” junto com o chanceler, só gostaria de saber de uma coisa: o que mesmo eles estavam comemorando?

Seria a compra do Congresso, com cargos e dinheiro de emendas para a turma da pesada do Centrão, que segundo o Estadão custaram pelo menos R$ 3 bilhões aos cofres públicos?

Em suas andanças pelo país e no cercadinho do Alvorada, nos últimos dias, os mais dramáticos da pandemia até agora, o presidente agora aparece nas fotos sempre rindo ou mandando alguém para a ponta da praia, arrancando aplausos dos áulicos.

Dele já não se esperava nenhuma compaixão com as famílias dos mortos pela tragédia da covid-19, mas também não precisava tripudiar.

Dizer que o general Pazuello é “um grande gestor que está fazendo um excelente trabalho” é debochar dos parentes das vítimas de Manaus que não conseguem vaga nos hospitais.

Bolsonaro virou um pândego sem noção que desfila sua boçalidade em meio aos velórios de um país cujas instituições já não são capazes de dar um basta a esse desatinado.

Chamar o capitão de genocida já nem faz cócegas nele. É bem capaz de nem saber o significado da palavra.

Tenho-me recusado a reproduzir as sandices que ele fala diariamente. Como brasileiro, sinto vergonha por ter de chamá-lo de presidente.

Mas parece que agora tudo faz parte da paisagem no holocausto brasileiro naturalizado dia após dia.

Nada mais é capaz de nos indignar, como aconteceu com o povo alemão dos meus antepassados, esmagados pelas botas dos nazistas.

Pelas histórias que me contava, nem sei como minha mãe conseguiu sobreviver e ter cinco filhos (três deles natimortos, devido à sua fraqueza no pós-guerra).

Aqui nunca tivemos guerra nenhuma, a não ser do governo militar contra o seu próprio povo, como novamente está acontecendo agora, com os generais entrincheirados no Palácio do Planalto, e o capitão se divertindo, num país asfixiado e sem vacinas.

E, para consumar o massacre dos nossos direitos e conquistas sociais, do nosso meio ambiente, da educação, da saúde, da cultura, da soberania nacional, a alegre turma da churrascaria, que fez lembrar o Baile da Ilha Fiscal, nos estertores do Império, só pensa na reeleição. O resto que se dane.

Alguma coisa não deu certo nessa República proclamada pelos militares, que nunca admitiram deixar o poder, desde Deodoro da Fonseca.

De marechais e generais mandando no Brasil, agora chegamos a um tenente reformado como capitão, aos 33 anos, ao ser afastado do Exército, deputado medíocre, um “boca de conflito”, que nunca fez nada de bom pelo país, defensor de ditadores e torturadores, um produto da Operação Lava Jato, que iniciou o processo de destruição do sistema político e da indústria brasileira.

Estamos virando uma fazenda de commodities, um grande acampamento, voltando à época da colonização, em que se matavam índios para ampliar os domínios, e depois importavam negros escravos para fazer o serviço.

Como a minha mãe, os índios sobreviveram, mas estão sendo dizimados, e o trabalho escravo incorporou outras raças, no campo e nas cidades, como o Jornal Nacional mostrou ainda esta semana.

Era esse “o Brasil que queremos”?, o tema da série do JN durante toda a campanha eleitoral, que nos levou à “difícil escolha” entre a civilização e a barbárie.

Se não reagirmos a tempo, a história poderá se repetir em 2022, como mostram as últimas pesquisas.

Resta saber quantos de nós sobreviveremos até lá para impedir que isso aconteça.

Eu já estou velho, mas espero que minhas filhas e netos não tenham que enfrentar o mesmo drama de minha mãe para lutar pela sobrevivência.

Não precisava ser assim.

Apenas cinco ou seis anos atrás, antes da Lava Jato, o Brasil era um país com pleno emprego, muita esperança e orgulho, admirado e respeitado pelo mundo.

Foi tudo muito rápido. A quem interessava destruir o país do Pré-sal, da Embraer, da Embrapa, do Ibama, da indústria automobilística, das energias alternativas, das novas universidades e tecnologias, do Bolsa Família elogiado pelo mundo inteiro e do Minha Casa Minha Vida, um país altivo que saiu do Mapa da Fome, para onde agora voltou?

Talvez aí se encontre uma explicação. Isso não pode ter sido coisa só de brasileiros. O FBI que o diga.

Vida que segue.

Fonte: Notícias UOL
30/01/2021 15h22

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