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Mulheres são ameaçadas diz estudo sobre contaminação em garimpo

Pesquisadoras queriam disponibilizar informações e testes sobre contaminação por mercúrio para mulheres que vivem e trabalham em Vila Nova, um local de garimpo no estado do Amapá. No primeiro dia, parte dos testes foi feito. No segundo, vieram ameaças.

Por Phillippe Watanabe, da Folhapress

SÃO PAULO – A equipe de coleta, composta só por mulheres, conseguiu fazer cerca de 20 coletas de fios de cabelo de moradoras. Foram, então, passar a noite em Pedra Branca do Amapari, para depois retornar à vila e continuar o trabalho.

Na manhã seguinte, o frentista de um posto da cidade avisou que haveria um recado na estrada para elas. Próximo ao acesso para a comunidade, havia uma caminhonete abandonada em chamas.

“Elas entenderam o recado”, afirma Decio Yokota, coordenador de gestão de informação do Iepé (Instituto de Pesquisa e Formação Indígena), uma das entidades que apoiaram o projeto. “Elas entenderam que não era para voltarem”.

A pesquisa foi desenvolvida pelo Ipen (sigla em inglês para Rede Internacional de Eliminação de Poluentes) e pelo Bri (Biodiversity Research Institute).

Segundo Yokota, elas já haviam sido abordadas por garimpeiros homens, possivelmente que dirigiam os garimpos ilegais na área, que as questionaram sobre o que estavam fazendo. O caso ocorreu no final de 2019, e a última etapa da ideia, que seria mostrar os resultados para as mulheres testadas, ainda não foi concluída devido à pandemia. Os resultados foram divulgados neste ano.

O representante do Iepé afirma que as 34 mulheres do garimpo – que, segundo ele, incluíam esposas de garimpeiros, garimpeiras de fato e mulheres que sobrevivem da prostituição no local – analisadas na pesquisa se mostraram interessadas em se testar.

Com as amostras coletadas e com mais algumas obtidas nos entornos da vila, foi possível detectar contaminação por mercúrio, tanto entre as mulheres do garimpo quanto entre outras que não atuam diretamente na atividade.

De acordo com ele, a contaminação que ocorre diretamente no garimpo, pelo manuseio do mercúrio para separação do ouro, é aguda, violenta e extremamente perigosa. “Mas, se a pessoa sair do garimpo, o mercúrio vai saindo do corpo”, afirma.

Um outro problema grave é a contaminação por metilmercúrio (100 vezes mais tóxico que o mercúrio em metal), através da ingestão de peixe contaminado.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) aponta que o consumo de peixe é, de forma geral, a principal forma de exposição humana ao mercúrio (metilmercúrio na verdade).

Todas as mulheres da região de Vila Nova que participaram da pesquisa consumiam peixe pelo menos uma vez por semana. Quanto maior o consumo do animal, maiores eram os níveis de mercúrio encontrados.

A contaminação por mercúrio pode afetar o cérebro, rins e fígado, segundo o Observatório do Mercúrio, plataforma criada pela WWF-Brasil, pela Fiocruz, e pelo Cincia (Centro de Innovación Científica Amazónica), além de outras instituições. A contaminação também pode afetar fetos.

O risco a gestantes e seus filhos, inclusive, levou o estudo da Iepé a se focar em mulheres em idade fértil, de 18 a 44 anos, segundo a metodologia da pesquisa.

Um estudo publicado, no ano passado, na revista Journal of Exposure Science & Environmental Epidemiology, com dados coletados em anos anteriores na Amazônia peruana, por exemplo, aponta níveis de contaminação por mercúrio maiores em comunidades classificadas como indígenas ou nativas, independentemente da proximidade com atividade de mineração.

Além desse estudo, diversos outros já mostraram contaminação por metilmercúrio em comunidades indígenas brasileiras. Novamente, o papel do garimpo na contaminação ambiental que afeta os peixes – alimento essencial para diversas comunidades de índios e ribeirinhos – é apontada como responsável pelo problema.

Pesquisas de 2016, 2019 e 2020, do Isa (Instituto Socioambiental), da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), e da Fiocruz e da WWF-Brasil já vinham detectando contaminações por mercúrio nos povos yanomami e munduruku.

No fim de 2021, a Funai (Fundação Nacional do Índio) proibiu que a Fiocruz fizesse um estudo sobre contaminação por mercúrio e o impacto da mineração ilegal dentro de terra yanomami. A justificativa foi a portaria 419, de 17 de março de 2020, que diz respeito à prevenção de contaminação por Covid.

O presidente Jair Bolsonaro (PL) é um defensor público da legalização de mineração em terras indígenas. Em 2021, ele esteve por duas vezes terras indígenas vizinhas aos yanomamis e interagiu sem máscara com índios.

Além do Brasil, o estudo, que recebeu apoio financeiro do governo da Suécia e de outros doadores, também foi desenvolvido na Venezuela, na Colômbia e na Bolívia.

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