Brasil

Há 521 anos, colonizadores invadiram o ‘Brasil’ e mataram indígenas

A história todos conhecem. Em 22 de abril, os portugueses chegaram às terras que hoje são chamadas de Brasil. Mas o que os verdadeiros donos desse lugar, os indígenas, contam sobre aquela data?

Por Waldick Junior

PORTAL.EM.TEMPO – Na história do Brasil, o dia 22 de abril é considerado o dia do ‘descobrimento’, quando portugueses chegaram a essas terras acreditando trazer ‘conhecimento’ e avanços para os indígenas da região. No entanto, muitas vezes, esse relato ignora o outro lado dessa história, ou seja, dos povos que aqui viviam, dos assassinatos e outras crueldades praticadas por colonizadores.

“Essa data marca o dia da chegada de um modelo colonizador que marcou os indígenas e os obrigou a abandonar suas epistemologias, culturas e práticas sociais. É isso o que 22 de abril representa para nós”, afirma João Paulo Lima Barreto, indígena do povo Tukano e doutor em Antropologia Social (Ufam). 

Barreto atua em defesa da garantia dos direitos indígenas
Barreto atua em defesa da garantia dos direitos indígenas | Foto: Alberto Cesar Araújo/Amazônia Real

Ele lembra que dados arqueológicos confirmam a presença de indígenas há pelo menos 13 mil anos nas terras hoje conhecidas como ‘continente americano’, o que significa que já haviam tecnologias, medicina e diversos outros conhecimentos praticados por esses povos.

“O conhecimento indígena foi sempre olhado por esse colonizador como sem sentido, sem dado científico, primitivo. Por isso, os parentes foram obrigados a negar seus conhecimentos, tradições, especialistas indígenas (pajés), práticas sociais e sua própria língua”, conta Barreto.

Segundo a Fundação Nacional do Índio (Funai), a população indígena em 1500, era de aproximadamente três milhões de pessoas, sendo que dois milhões viviam no litoral e um milhão no interior do País. Com as guerras de resistência aos colonizadores e epidemias de doenças trazidas da Europa, a população indígena reduziu drasticamente. Até 2010, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estimava que o Brasil possuía 817.963 indígenas.

Indígenas tiveram perda na cultura e prática sociais
Divulgação

Primeiro contato

De acordo com relatos históricos da época, os portugueses avistaram as terras brasileiras em 22 de abril, mas só desembarcaram no dia seguinte. É o que conta o professor Davi Avelino, doutor em Sociedade e Cultura na Amazônia (Ufam) e autor de pesquisas sobre a história indígena e indigenista. 

“Os portugueses desembarcaram em 23 de abril onde hoje é conhecido como Porto Seguro, na Bahia e têm o primeiro contato com os Tupiniquins. Esse é o registro do primeiro encontro”, afirma o historiador.

Avelino conta ainda que, nesse momento, parte dos tupiniquins viu os navegantes como se fossem deuses ou heróis, pois em sua cosmologia (visão de mundo), estes teriam vindo do grande rio (o mar). 

“Essa visão durou pouco, porque os anos mostraram que a relação logo se tornou de guerra, de escravidão, mas não sem antes muita luta por parte dos indígenas”, relata o historiador.

Resistência 

Por muitos anos, a história retratou os indígenas como passivos durante a invasão dos portugueses. No entanto, Avelino conta que há pelo menos 30 anos um movimento encabeçado por indígenas e pesquisadores busca recontar esse momento.

“Ultimamente dois conceitos têm orientado a leitura dos historiadores. O primeiro é o da resistência, pois indígenas se colocaram como protagonistas e organizaram uma série de estratégias de resistência durante aquele período”, afirma o pesquisador.

Outra forma de lutar contra o colonizador, segundo Avelino, foi o chamado ‘agenciamento’ realizado por indígenas com os colonizadores.

Quadro 'Dança dos tapuias' retrata o povo que, em 1687, lutou na Guerra das Tapuias, contra os portugueses, na Paraíba
Quadro ‘Dança dos tapuias’ retrata o povo que, em 1687, lutou na Guerra das Tapuias, contra os portugueses, na Paraíba | Foto: Pintura de Albert Eckhout

“Em vários momentos, indígenas e portugueses conectaram seus diferentes mundos, em especial porque parte dos povos tradicionais construíam uma relação com o colonizador, buscando vencer a própria colonização”, conta o historiador.

Um exemplo dos conflitos é o que aconteceu no sul do Brasil e ficou conhecido como Guerra Guaranítica. Na ocasião, indígenas lutaram contra espanhóis e portugueses, em recusa a mudar de território. Além das lutas, doenças trazidas involuntariamente por colonizadores, tais como a varíola, dizimaram as populações indígenas. 

Visão colonizadora permaneceu

De volta em sua análise, João Paulo Lima Barreto, do povo Tikuna, explica que a visão colonizadora trazida pelos portugueses em 22 de abril permanece até hoje.

“Esse modo de olhar os indígenas, como se não tivessem conhecimento ou cultura, ainda continua a medida em que instituições estatais seguem com essas visões. O conceito de que indígenas devem aprender algo, como se lhes faltasse conhecimento, ainda está dentro da lógica de uma civilização sobre a outra. O fato é que hoje essa colonização é sutil”, comenta o professor.

Barreto dá um exemplo em seu meio, o universitário. Recentemente ele se tornou o primeiro indígena a conquistar o título de doutor em Antropologia Social na Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

“Um exemplo de que nos acham sem conhecimento é pensar como universidades ou organizações não governamentais gostam de dar oficinas e capacitações sobre diversos assuntos aos indígenas. Tudo é formação. E, por trás desse movimento, penso que é possível reconhecer a ideia colonial que o indígena não tem conhecimento como o da ciência ocidental”, critica ele.

Indígenas lutam para manter viva sua cultura ainda hoje
Indígenas lutam para manter viva sua cultura ainda hoje | Foto: Divulgação

O Tikuna finaliza sua análise reiterando a visão colonizadora com que o dia 22 de abril é visto e contado, ano após ano, apenas com a visão dos portugueses. 

“Não podemos concordar com isso, permitir que ainda seja assim. Estamos nesse continente há pelo menos 13 mil anos e os colonizadores há 521. Eles que chegaram agora e ainda são prepotentes, que nos subjugam sob seus próprios  critérios. Isso não pode mais acontecer”, diz Barreto.

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