Brasil Política

A nova Guerra Fria

O encontro entre o americano Donald Trump e o chinês Xi Jinping, previsto para sábado em Buenos Aires, marca um novo capítulo no enfrentamento entre as duas superpotências globais

texto: Por Helio Gurovitz

Quando surgiu, dez anos atrás, o G-20, grupo que reúne as vinte maiores economias mundiais, teve papel crucial para debelar a crise financeira que provocou a maior e mais veloz destruição de riqueza na história humana.

O G-20 era o maior exemplo do mundo multilateral que emergiu ao final da Guerra Fria, em que vários países defendem diferentes interesses num foro com regras comuns. Aquele tempo passou.

A reunião do G-20 marcada para os próximos dias em Buenos Aires é a marca do retorno a um mundo bilateral, com o enfrentamento entre as duas únicas superpotências terrestres, Estados Unidos e China, possível embrião de uma nova Guerra Fria.

É para o encontro entre o americano Donald Trump e o chinês Xi Jinping, marcado para sábado, que todos – em especial os mercados – olham com ansiedade e apreensão. Ele tornará explícitas as tensões e poderá redesenhar o equilíbrio de forças em vigor nos últimos anos.

É um engano encarar o conflito China-Estados Unidos apenas como uma questão comercial, deflagrada pelas tarifas impostas pelo governo Trump contra as importações chinesas – que já atingem produtos no valor US$ 250 bilhões e poderão crescer, ainda que contestadas na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Está em jogo bem mais que isso: a disputa por esferas de influência e o mecanismo de codependência que enlaça as economias americana e chinesa. Os Estados Unidos dependem do excesso de poupança chinesa para financiar seu déficit comercial. A China depende do mercado americano para comprar sua produção industrial.

A posição dos americanos como importadores de capital e mercadorias estava em xeque mesmo antes das tarifas de Trump. A própria China tomou a decisão estratégica de sofisticar sua economia, investir em tecnologia e conhecimento, apostar no consumo interno e reduzir os investimentos em papeis do Tesouro americano.

A primeira resposta dos Estados Unidos, dada no governo Barack Obama, foi tentar criar na Ásia uma barreira de contenção ao avanço chinês, por meio de uma nova área de livre-comércio, estabelecida no Tratado para a Parceria Transpacífico (TPP).

A China reagiu com uma iniciativa colossal de investimentos externos, voltada para países centro-asiáticos e Europa (inclusive Rússia), de modo a reproduzir a trajetória da antiga Rota da Seda – a Iniciativa Cinturão e Estrada, maior prioridade estratégica de Xi.

Com a ruptura do TPP e a adoção de tarifas comerciais para tentar reduzir seu enorme déficit na balança comercial (quase US$ 800 bilhões), o governo Trump mudou a posição das peças no tabuleiro. Tenta desacoplar a economia americana da chinesa, embora estabelecer tarifas não seja um modo eficaz para fazer isso.

Enquanto a poupança americana for insuficiente para as necessidades internas de financiamento, o déficit comercial persistirá e simplesmente migrará para países menos expostos (situação que, por sinal, já abriu oportunidades ao Brasil). A China inundará outros mercados com seus produtos, deprimindo outras indústrias locais.

Tamanha é a preocupação com os chineses nos Estados Unidos, que 80% dos republicanos no Congresso, outrora defensores intransigentes do livre-comércio, hoje apoiam as tarifas. Mas não há como rever o modelo de codependência entre americanos e chineses sem uma negociaçao bilteral profunda. A China não abrirá mão de sua transição da indústria para serviços, das exportações para o consumo interno, da importação de tecnologia para o desenvolvimento próprio.

A reação americana também criou uma causa comum entre China e Europa no combate ao protecionismo, reforço à Iniciativa Cinturão e Estrada de Xi. Uma defesa óbvia contra as tarifas americanas, que tem sido evitada até agora, é a China manter sua moeda ainda mais desvalorizada artificialmente, possibilidade que tem aguçado a tensão nos mercados financeiros.

A ansiedade embute o risco de uma crise financeira aguda, embora em intensidade menor que a de 2008. O Fundo Monetário Intenacional já alertou para o alto grau de alavancagem dos empréstimos a empresas em situação crítica (US$ 1,3 trilhão, valor comparável ao de 2007). A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) reduziu sucessivas vezes as perspectivas de crescimento global.

O ex-secretário do Tesouro Hank Paulson, um dos artífices do combate à crise de 2008 e um dos maiores conhecedores da dinâmica sino-americana, lançou este mês outro alerta: a possibilidade de uma nova Guerra Fria. “Esta região precisa observar com atenção a perspectiva de aquilo que, até agora, era visto como uma competição estratégica saudável desandar para uma Guerra Fria”, afirmou em Cingapura.

Do Mar do Sul da China à Ucrânia, não faltam regiões que opõem interesses chineses e americanos e trazem potencial para conflitos bélicos. “Gostemos ou não, se quisermos sobreviver e manter nossas identidades separadas, é necessário aprender qual é o interesse conjunto em qualquer momento do tempo”, disse Paulson.

Apesar do embate entre Trump e Xi ser visto como enfrentamento de dois modelos econômicos distintos, as economias americana e chinesa funcionam hoje de modo muito parecido. Ambos querem proteger seus empregos e mercados. Xi adotou até uma versão daquilo que poderíamos chamar de “imperialismo com características chinesas”.

O americano Stephen Roach, da Universidade Yale, acredita ser possível criar uma agenda comum em torno de temas como acesso a mercados, poupança e segurança digital. Mas vê com pessismo a possibilidade de que Trump e Xi saiam de Buenos Aires com algum acordo.

Para uma nova Guerra Fria, não é necessário que cada lado defenda seu modelo econômico ou político como o melhor para todos. Basta, como diz Mark Leonard, diretor do European Council on Foreign Relations, cada um acreditar que só pode haver um vencedor.

fonte: g1.globo.com.

 

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Direto da Redação

Notícia, conteúdo e credibilidade

Folha de Maués

Notícias da Terra do Guaraná

G1 > Turismo e Viagem

Notícias da Terra do Guaraná

G1 > Mundo

Notícias da Terra do Guaraná

G1 > Brasil

Notícias da Terra do Guaraná

WordPress.com em Português (Brasil)

As últimas notícias do WordPress.com e da comunidade WordPress

%d blogueiros gostam disto: